Dossiê Guerra Conflitos sem soldados
As guerras que não têm soldado
No livro, a batalha pelo futuro é travada com códigos, reputações e segredos. Fora dele, drones autônomos já priorizam alvos, robôs humanoides militares estão em teste e não existe tratado que obrigue um humano a decidir.
Túlio Iannini 6 jul 2026 6 min de leitura
A frase do prólogo que mais me perguntam em entrevistas é esta: uma guerra travada não com armas, mas com códigos, reputações e segredos enterrados nas profundezas do ciberespaço. Ela soa metafórica. Não é. É uma descrição razoavelmente precisa de como conflitos passaram a ser conduzidos — e a parte da metáfora que envelheceu mais rápido foi justamente o "não com armas".
A guerra virou operação algorítmica
O conflito aberto envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã em 2026 é tratado por analistas como ponto de inflexão militar. Drones autônomos e sistemas de inteligência artificial foram empregados em escala para mapear, priorizar e atacar alvos. O ganho tático foi brutal, e ele não está na potência do armamento: está na compressão do tempo de decisão. Planejamentos de bombardeio que exigiam dias passaram a ser produzidos em intervalos que não cabem em nenhuma cadeia de deliberação humana tradicional.
É aqui que mora a distorção que quase ninguém percebe. Quando a máquina reduz de dias para minutos o tempo entre "identificar" e "engajar", ela não elimina o humano do processo — ela apenas retira dele a possibilidade real de discordar. O humano continua na sala, autorizando em lote aquilo que já não tem tempo de examinar.
O corpo entra em campo
Em julho de 2026, uma empresa americana revelou estar desenvolvendo robôs humanoides para operações militares, com testes já realizados em cenários ligados ao conflito na Ucrânia. As missões declaradas são logística, reconhecimento e inspeção — e a companhia confirmou estudar a incorporação de capacidades cinéticas, que é o termo do setor para armamento letal.
A Organização das Nações Unidas defende há anos normas internacionais que impeçam sistemas capazes de selecionar e atacar alvos sem controle humano significativo; o secretário-geral repete que máquinas não devem decidir quem vive ou morre. O debate corre no âmbito da Convenção sobre Certas Armas Convencionais desde 2013, com um grupo de peritos governamentais criado em 2016, e avança pouco por um motivo estrutural: o mecanismo exige consenso, e as grandes potências militares que mais investem no tema não têm interesse em consentir. O Brasil, vale registrar, é uma das delegações que defendem abertamente a negociação urgente de um instrumento juridicamente vinculante.
Enquanto isso, o Conselho Europeu de Investigação estima que forças armadas ao redor do mundo já operam mais de 130 sistemas de armas capazes de rastrear e engajar alvos de forma autônoma. O marco não é futuro. O marco está atrasado.
A barreira não está na inteligência: está no código em volta
Há uma observação técnica que deveria estar em toda discussão sobre o assunto, e que raramente está: o modelo não sabe se está sugerindo um alvo num painel ou acionando um disparo. Essa distinção não vive na inteligência artificial — vive na arquitetura do sistema que a cerca, nas permissões, nas travas, no que foi escrito por engenheiros que responderão por isso. A responsabilidade é do código, e código é decisão humana documentada.
É exatamente o dilema do livro. O chiplet de Maratea não era perigoso por ser esperto; era perigoso porque estava ligado a pagamentos, energia, saúde e satélites ao mesmo tempo. Capacidade sem topologia é laboratório. Capacidade com topologia é arma.
A frente que atinge você sem uniforme nenhum
A guerra do romance não acontece só em céus e servidores. Ela acontece em manchetes. O Sindicato não invade para roubar: fabrica o caos e depois vende a solução a um mundo assustado o suficiente para aceitar qualquer coisa. E a destruição de Dimitrios, no capítulo 9, começa com uma notícia falsa boa demais para ser contestada.
Essa frente já opera contra empresas brasileiras, com números que constam de relatórios de mercado:
- O Global Risks Report 2026 do Fórum Econômico Mundial classificou desinformação e fraude geradas por inteligência artificial como o principal risco à estabilidade dos negócios no biênio.
- Segundo o Relatório de Identidade e Fraude 2026 da Serasa Experian, tentativas de fraude com manipulação de vídeo e áudio cresceram cerca de 150% no Brasil no último ano.
- O Observatório de Cibersegurança da Febraban estima que o chamado golpe do CEO 2.0 — a voz do dono da empresa clonada em uma ligação ou áudio de aplicativo — custou aproximadamente R$ 1,2 bilhão às empresas brasileiras somente em 2025.
Repare no padrão desses ataques: autoridade aparente, urgência e quebra dos controles normais de aprovação. Não é uma falha técnica do seu celular. É engenharia social com produção de cinema.
O que uma empresa faz na segunda-feira
- Aposente voz e imagem como prova de identidade. Qualquer pedido de pagamento, mudança de dados bancários ou liberação de acesso exige confirmação por um segundo canal independente, escolhido por quem recebe o pedido — nunca pelo canal em que ele chegou.
- Dupla aprovação acima de um valor definido, sem exceção para pedido vindo do topo da hierarquia. A exceção para o chefe é precisamente o vetor do ataque.
- Combine uma palavra de verificação entre diretoria e financeiro, fora dos sistemas da empresa. Ridiculamente simples, e foi o que frustrou casos reais de milhões.
- Ensaie o telefonema falso. Do mesmo jeito que se ensaia recuperação de ransomware. Nos incidentes de maior repercussão, o que separou o prejuízo do golpe frustrado não foi ferramenta de detecção: foi existir um processo de verificação e gente preparada para sustentá-lo sob pressão.
- Mapeie sua dependência de infraestrutura crítica. Energia, telecomunicação, nuvem, meio de pagamento. Escreva o que a empresa faz nas primeiras seis horas sem cada um deles.
- Trate deepfake como risco permanente, não como incidente isolado. Isso significa dono, orçamento, treinamento recorrente e item em pauta de conselho.
A pergunta que a ficção deixa
No livro, ninguém ganha essa guerra. Ela é interrompida por uma coalizão improvável — hackers, cientistas, uma criptógrafa em Cingapura, uma anciã em Luanda — que consegue um empate temporário. Tony resume no último capítulo: salvamos o mundo, de novo. Por enquanto.
Guerras sem soldado têm uma característica cruel: elas não terminam com assinatura. Elas apenas mudam de intensidade. O que existe para ser construído não é a vitória, é a capacidade de continuar operando enquanto o conflito não acaba — nas empresas, nos serviços essenciais e na cabeça das pessoas que precisam distinguir o real do fabricado várias vezes por dia.
Onde conferir
- CNN Brasil — drones e IA mudam as guerras e levantam dúvida sobre controle humano
- Gizmodo Brasil — robôs humanoides militares em teste e o debate sobre armas autônomas
- Le Monde Diplomatique Brasil — o debate sobre armas autônomas letais na ONU e a posição brasileira
- Instituto Cátedra — drones militares e as lacunas do Direito Internacional Humanitário
- Dados de Serasa Experian, Febraban e do Global Risks Report 2026 sobre fraude com deepfake no Brasil
- Casos reais de fraude corporativa com clonagem de voz e o que frustrou os golpes
A obra
Isto começou como ficção
Tudo neste dossiê nasceu de uma cena de A Era dos Anéis de Sangue, romance de 2050 em que o DNA virou identidade, moeda e sentença.
Sinopse em uma linha
Um sistema que prometeu o fim da fraude transformou o corpo humano em senha — e quando o corpo pode ser copiado, o que sobra de nós?
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