Ir direto ao conteúdo
A Era dos
Anéis de Sangue

Dossiê Guerra Conflitos sem soldados

A guerra no fundo do mar

No livro, a fortuna do mundo mora em satélites. No mundo real, 99% dos dados que o Brasil troca com o planeta passam por cabos no fundo do oceano — e eles vêm sendo rompidos com uma frequência que já não parece acidente.

Túlio Iannini 17 jul 2026 5 min de leitura

Quando montei os bunkers virtuais do livro, coloquei a riqueza do mundo em satélites por uma razão dramática: satélite é longe, é difícil de alcançar, dá uma boa cena. Errei o alvo. A infraestrutura que realmente sustenta a economia digital não está no espaço. Está no fundo do mar, e é bem mais fácil de alcançar do que eu imaginava.

Noventa e nove por cento

Essa é a fatia do tráfego internacional de dados brasileiro que depende de cabos submarinos. Não é a maior parte: é praticamente tudo. Cada transferência internacional, cada consulta a um serviço em nuvem hospedado fora, cada comunicação de governo, cada operação de comércio exterior atravessa fibras que repousam no leito do oceano.

São cerca de 500 cabos cruzando os mares, mais de 1,3 milhão de quilômetros de extensão. Como resumiu um pesquisador alemão de segurança marítima, praticamente toda a troca de informação do mundo passa por ali — e isso nos torna dependentes em nível global.

No caso brasileiro há um agravante que poucos conhecem: os pontos de aterragem, onde os cabos tocam a terra, estão concentrados em pouquíssimos corredores — Fortaleza, Rio de Janeiro, Praia Grande e Santos. Concentração geográfica dessa ordem transforma acidente, evento climático extremo, falha operacional ou sabotagem em problema nacional. Não por acaso, a Anatel abriu uma tomada de subsídios sobre as regras aplicáveis aos cabos submarinos, dentro da sua agenda regulatória de 2025-2026.

A frequência que deixou de parecer coincidência

Estudos da Universidade de Washington contabilizam pelo menos dez cabos rompidos desde 2022, alguns com indícios de ação humana. Na América Latina, foram ao menos dez rupturas entre 2023 e 2025 — com sete delas concentradas entre novembro de 2024 e janeiro de 2025, uma frequência que contrasta fortemente com o período anterior à invasão russa da Ucrânia.

No Mar Báltico, os rompimentos viraram assunto de gabinete de crise. Em torno de Taiwan, incidentes recorrentes desde 2023 afetaram cabos essenciais para as comunicações da ilha. Centros de estudo de segurança marítima documentam manobras de embarcações ligadas a China e Rússia em áreas próximas a essas instalações.

E existe um corredor onde a coisa fica explícita. O Estreito de Ormuz e o Mar Vermelho — este último concentrando pelo menos 17 cabos — formam a espinha dorsal das conexões entre Europa, Ásia e África. Em abril de 2026, uma agência de notícias ligada à Guarda Revolucionária iraniana publicou um relatório detalhando a infraestrutura de cabos e sistemas de nuvem do Golfo Pérsico. O documento foi lido internacionalmente como recado: a infraestrutura digital dos vizinhos passou a ser tratada como parte potencial da zona de conflito. Em maio, veículos estatais passaram a defender que empresas estrangeiras pagassem taxas pelo uso dos cabos que atravessam o estreito.

É a mesma lógica que o Irã aplica ao petróleo há décadas, transposta para o dado. Com uma diferença que um analista do Atlantic Council resumiu melhor do que eu conseguiria: ao contrário do petróleo, que tem estoque, a internet não tem reserva.

O que aconteceria de verdade

Aqui é preciso baixar a bola, porque a manchete de "apagão global" vende mais do que informa. A rede foi desenhada com redundância: múltiplos cabos ligam as mesmas regiões, e o tráfego se redireciona. Um colapso total e simultâneo é improvável.

O que é provável, e já aconteceu, é outra coisa: instabilidade regional, serviços específicos fora do ar e atrasos em transações — sobretudo financeiras. Como explica uma engenheira de redes ouvida sobre o tema, o redirecionamento é possível, mas não é substituto à altura: a latência sobe, a banda cai, e o risco de colapso é real se um dos poucos caminhos restantes também for afetado.

Para uma corretora, uma instituição de pagamento ou uma indústria que opera integrada a fornecedores no exterior, "latência sobe e banda cai" não é inconveniente técnico. É prejuízo com hora marcada.

Onde isso encosta na sua empresa

Você não vai proteger cabo submarino. Mas a sua dependência dele é gerenciável, e quase ninguém a mapeou:

  • Descubra o que da sua operação depende de fora do país. Serviço em nuvem, autenticação, meio de pagamento internacional, ERP hospedado, backup remoto. Faça a lista antes de precisar dela.
  • Escreva o plano das primeiras seis horas. O que a empresa faz sem internet internacional? Existe modo degradado? Consegue vender, faturar, atender por telefone? Se a resposta for "a gente para", isso é uma decisão — só que tomada por omissão.
  • Não confunda redundância de fornecedor com redundância de caminho. Duas nuvens diferentes podem sair do país pelo mesmo cabo, pelo mesmo ponto de aterragem. Pergunte ao seu provedor por onde o tráfego realmente sai.
  • Mantenha uma cópia dos dados críticos em território nacional, mesmo que a operação principal seja fora. É a mesma lógica das embaixadas de dados que a Estônia adotou.
  • Ensaie. Uma vez por ano, com hora marcada, opere meio dia como se a conexão internacional tivesse caído. O primeiro ensaio sempre revela uma dependência que ninguém sabia que existia.

O que o livro entendeu sem querer

Em Maratea, a coisa mais perigosa da história é interrompida não por um herói, não por um comando, não por uma decisão corajosa — mas por uma queda de energia. A cena está lá por outro motivo, e envelheceu virando tese: a camada que decide o destino de tudo é sempre a mais banal e a menos vigiada.

Gastamos a última década discutindo se a inteligência artificial vai nos superar. Enquanto isso, a economia inteira do planeta atravessa alguns fios finos no escuro do oceano, mapeados publicamente, defendidos por quase ninguém, e que qualquer âncora arrastada no lugar errado pode romper.

A obra

Isto começou como ficção

Tudo neste dossiê nasceu de uma cena de A Era dos Anéis de Sangue, romance de 2050 em que o DNA virou identidade, moeda e sentença.

Sinopse em uma linha

Um sistema que prometeu o fim da fraude transformou o corpo humano em senha — e quando o corpo pode ser copiado, o que sobra de nós?