Dossiê Memória O que não pode se perder
A Comunidade 1984 precisa existir agora
No livro, arqueólogos escavam smartphones enferrujados numa praia grega e encontram um livro de papel. Fora dele, 38% dos sites que existiam em 2013 já não abrem — e o maior arquivo da internet vive sob cerco.
Túlio Iannini 26 jun 2026 6 min de leitura
O capítulo 4 é o mais silencioso do livro e o meu preferido. Não tem perseguição, nem invasão, nem placar caindo. Tem três pesquisadores caminhando entre a ruína dos nossos aparelhos, numa praia grega, tentando entender o que foi que sobrou de nós ali. E a resposta é desconfortável: sobrou muito pouco. Sobrou o objeto, não o conteúdo.
Escrevi aquela cena imaginando uma arqueologia impossível. Depois descobri que ela já é uma disciplina com nome — arqueologia digital — e que o problema que ela enfrenta é mais imediato do que 2050.
A memória não está sendo perdida: está sendo abandonada
Um levantamento amplamente citado por arquivistas indica que cerca de 38% dos sites que existiam em 2013 já não estão acessíveis. Não foram censurados. Simplesmente deixaram de ser pagos, migrados, mantidos. A área tem termos próprios para descrever o fenômeno: digital decay, vanishing culture, e o mais sombrio de todos, digital dark age — a idade das trevas digital, o cenário em que uma época produz mais registro do que qualquer outra na história e transmite menos.
O paradoxo é cruel. Fotografia de papel dura cem anos numa gaveta esquecida. Arquivo digital dura até a próxima troca de formato, de plataforma, de cartão de crédito cadastrado. Documentos digitais se perdem com a mesma facilidade com que são gerados, como alerta há anos a literatura brasileira de preservação — e cada perda deixa uma lacuna histórica e cultural que não se recupera.
O acervo comum sob pressão
Boa parte do que ainda sobrevive da internet dos últimos trinta anos depende de um punhado de instituições, e a principal delas vive em situação frágil. O Internet Archive saiu derrotado de um processo movido por editoras nos Estados Unidos, enfrentou ação da indústria fonográfica e, em 2026, passou a lidar com um problema novo e mais estrutural: o bloqueio crescente de acesso automatizado à web pública. Mais de cem jornalistas assinaram uma petição em apoio ao arquivo, argumentando algo simples e verificável — sem a preservação contínua feita ali, grande parte da história jornalística recente já estaria perdida, porque artigos desaparecem por mudança de link, fusão de empresas ou corte de custos.
Como resumiu um dos responsáveis pelo acervo, o bloqueio de grande parte da internet pública prejudica a capacidade da sociedade de compreender o que está acontecendo no próprio mundo. É uma frase técnica com consequência civilizatória.
Estados já fazem cópia de segurança de si mesmos
Há uma resposta institucional em curso que parece saída do romance: as embaixadas de dados. Estônia e Mônaco mantêm cópias criptografadas de dados governamentais em servidores soberanos localizados fora do próprio território — em Luxemburgo, por exemplo — com estatuto diplomático, para garantir a continuidade do Estado e a preservação da memória nacional em caso de crise severa.
Ou seja: países já concluíram que precisam de um exemplar guardado longe. No Brasil, o debate aparece em torno de soberania informacional e do papel do arquivista contemporâneo, que deixou de ser guardião de papel para se tornar auditor crítico de vieses, de metadados de automação e de rastreabilidade de origem dos acervos.
E agora a memória também pode ser fabricada
A perda de acervo seria um problema administrável se o que restasse fosse confiável. Não é o caso. A síntese de áudio e vídeo em tempo real deixou de ser questão de qualidade técnica e passou a ser questão de confiança em infraestrutura: assinatura de origem, autenticação, letramento digital. A capacidade humana de "perceber" que algo é falso deixou de ser defesa.
Os números brasileiros dão a dimensão: fraudes com deepfake e identidades sintéticas cresceram 126% no país em 2025, segundo relatório de mercado, e o Brasil concentra quase 39% de todos os casos detectados na América Latina. Levantamentos independentes registram salto de 150 incidentes em todo o ano de 2024 para 580 apenas no primeiro semestre de 2025.
Junte as duas curvas — menos registro autêntico preservado, mais registro falso produzido — e você tem o cenário exato que faz a Comunidade 1984 fazer sentido no livro: um grupo que decide preservar o físico não por nostalgia, mas porque o físico é auditável.
Para a família: o arquivo que ninguém vai fazer por você
- Imprima. Vinte fotos por ano, em papel, com data e nome escritos atrás. É o único formato que atravessa décadas sem depender de senha, assinatura mensal ou empresa viva.
- Regra das três cópias. Três cópias do que importa, em dois tipos de mídia diferentes, uma delas fora de casa. É o padrão dos arquivistas profissionais e funciona igual numa casa.
- Formatos abertos vencem. PDF, JPG, TXT, MP4. Formato proprietário de aplicativo é aposta na sobrevivência da empresa.
- Grave as pessoas. Vinte minutos de áudio com um avô contando a história da família valem mais que dez mil fotos. E façam isso enquanto é possível.
- Deixe instruções de acesso. Onde estão as coisas e quem pode abrir. Boa parte da memória familiar hoje é perdida por senha, não por incêndio.
Para a empresa: seu passado é um ativo, e ele está mal guardado
- Defina o que é registro permanente. Contratos, atas, decisões de conselho, projetos originais, marcas, código-fonte. Isso não é backup operacional: é arquivo institucional, com prazo, responsável e política escrita.
- Backup não é preservação. Backup restaura ontem. Preservação garante leitura em dez anos: formato aberto, migração periódica, verificação de integridade e cadeia de custódia documentada.
- Sua história é ferramenta jurídica. Em disputa contratual, trabalhista ou de propriedade intelectual, vence quem tem o registro autêntico e datado.
- Adote procedência de conteúdo. Assinatura digital e metadados de origem no que a empresa publica. Em pouco tempo, provar que um vídeo institucional é legítimo vai valer mais do que produzi-lo bem.
- Guarde uma cópia fora do seu principal fornecedor de nuvem. Pela mesma razão que a Estônia guarda.
O primeiro token
Na cena do livro, Sophia olha para o exemplar enterrado e diz que aquele 1984 poderia ser o primeiro token de algo revolucionário. A ironia é toda intencional: eles usam a tecnologia que os vigia para proteger o que a tecnologia está apagando.
Não precisamos de uma rede clandestina. Precisamos de uma decisão bem menos épica e bem mais chata: escolher, hoje, o que a nossa geração quer que ainda seja legível em 2050 — e pagar o preço de manter isso legível. Nenhum algoritmo vai fazer essa escolha por nós, e nenhum deles será cobrado por não tê-la feito.
Onde conferir
- Guia de arquivamento da web: os 38% de sites de 2013 inacessíveis e os conceitos de digital decay e digital dark age
- Band — o Internet Archive sob risco e a petição de jornalistas em apoio ao acervo
- Semana Nacional de Arquivos 2026 — embaixadas de dados, soberania informacional e o papel do arquivista
- SciELO ComCiência — a importância da preservação dos acervos digitais
- Olhar Digital — deepfakes em 2026: síntese em tempo real e confiança em infraestrutura
- Dados do Identity Fraud Report sobre o crescimento de deepfakes no Brasil
A obra
Isto começou como ficção
Tudo neste dossiê nasceu de uma cena de A Era dos Anéis de Sangue, romance de 2050 em que o DNA virou identidade, moeda e sentença.
Sinopse em uma linha
Um sistema que prometeu o fim da fraude transformou o corpo humano em senha — e quando o corpo pode ser copiado, o que sobra de nós?
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